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Flávia Abdallah: ela é toda arte


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Flávia fala sobre balé, artes plásticas, filho e futuro

A arte de Flávia Abdallah está por toda parte. Recita poesias entre suas afirmações, sempre finalizadas com um riso, ou uma sincronizada gargalhada. Ergue os braços, mexe nos cabelos, gesticula o tempo inteiro. Se aparecer um papel e uma caneta, ela desenha e, em segundos, produz uma obra-prima. E não para de falar. Esta é a artista que, ainda adolescente, dançou sucessos nas apresentações do Studio 474, na década de 80. Que nos anos seguintes, foi dirigida por Nuno Leal Maia e viu sua vida acontecer em oportunidades determinantes para sua carreira. É a mãe batalhadora, que decidiu fazer abdicar de uma confortável condição financeira nos grandes centros para dedicar-se às construções por um futuro melhor para a cidade onde nasceu. É a artista que acaba de lançar o projeto “Danças de Quinta” para que, como ela gosta de dizer, “cada um encontre o seu lugar no movimento”.
Movimento é a vida de Flávia Abdallah. Ao perguntar quando a dança aconteceu na sua história, ela dispara: “no nascimento”. Revela que desde muito pequena ela não andava. Rodopiava, deslizava, como se estivesse em um palco. E vivia numa espécie de mundo mágico - desses geralmente frequentado por artistas - e, lá, passava os dias criando e dançando. Ela atribui todo esse movimento às influências que o pai, Carlos Flávio Vasconcelos – um dos fundadores da Lira Itapevense – exercia sobre ela. “Ele era uma pessoa de muito alto astral. Vivia cantando e dançando”. A mãe, Zerifi Abdallah, também era uma artista na visão de Flávia. “Ela fazia arte nos bolos que confeccionava”, recorda.
Nesse universo de criatividade, em 1979, Flávia então com cinco anos, foi matriculada no curso de dança com a bailarina russa Ângela, até que Juliana Martins de Oliveira chegou da Suíça e passou a dar aulas de jazz e balé na academia da Rosa Chueri, no Jardim Ferrari. “E aí eu não parei mais”, diz. Quando a mãe, por algum motivo, a repreendia e se recusava a pagar as mensalidades da academia, Flávia fazia doces e bolos e os “permutava”, para poder continuar dançando.
Nos anos 90, Flávia fez sucesso com o musical Luluxa, escrito e dirigido por Nuno Leal Maia. Oportunidades, então, começaram a surgir e ela foi aproveitando para estudar mais, se aperfeiçoar em temas novos para a época, como a dance habilit, que dava condições de dança para os portadores de necessidades especiais. Neste período ela ainda participou de duas grandes companhias de dança, como a Companhia Nova Dança, de Tica Lemos e Balangandança, de Geórgia Lengos. E estudou Pilates o que, segundo ela, revolucionou sua maneira de se comunicar com o próprio corpo. “Respiro o corpo o tempo todo”, diz.
O tempo passou e, há três anos, a chegada do pequeno Pedro reordenou sua vida e fez com que sua consciência de futuro ganhasse novas proporções. Através da dança e das artes plásticas – outra paixão que a acompanha desde “sempre” – passou a desenvolver projetos mais comunitários, educativos. De volta a Itapeva, cidade onde nasceu, hoje Flávia trabalha, através da Secretaria Municipal de Educação, com a transformação de ideias e conceitos tanto relacionados ao corpo como à mente. E estuda (é graduanda em Pedagogia pela Fatec) e ainda neste ano se forma em Artes Plásticas pela Escola Panamericana de Artes Plásticas e, nas horas vagas, produz artes – todas – ao lado do filho Pedro, o maior amor da sua vida.

Folha do Sul - As meninas que dançavam no Studio 474 (ícone da dança nos anos 80 e 90) seguiram outras carreiras. Como foi para você optar por trabalhar com a dança?
Flávia Abdallah – Pois é, as pessoas falavam ‘essa menina só pinta e dança, o que ela vai ser quando crescer?’. Mas eu batalhei os espaços, tive oportunidades de conhecer pessoas diferentes e aí então eu não me sentia mais tão ‘fora’. Fiz aula de balé clássico na Escola de Bailado do Teatro Municipal, lá passei por uma audição e consegui meu registro profissional de bailarina, que é o DRT. Então no começo da década de 90 eu me profissionalizei. Abandonei o balé e passei a fazer pesquisas de dança contemporânea, fiz vários cursos. Fui auxiliar na formação de alunos da ECA (Escola de Comunicação e Artes).
Folha - Hoje você desenvolve o Projeto Dança de Quinta, sendo elogiada pelos mais diversos setores da Cultura de Itapeva. Você considera uma realização ou ainda faltam ações para que você esteja completamente realizada?
Flávia – Sonhos, sempre. Agora eu sonho com os pés no chão, mas sempre. Realização, parcial Eu me sinto muito realizada por estar morando aqui no interior, na minha cidade. Eu sinto muito mais tocar o coração de uma pessoa aqui do que num teatro lotado, em São Paulo. Eu me realizo por ser reconhecida aqui. Mas faltam ações. Tem a questão financeira, muitos te nivelam por baixo, mas não vou mais ficar reclamando do que não tem. Eu vou fazer, eu vou propor. O projeto Danças de Quinta nasceu com esse intuito, de fomento. A ideia é que exista o espaço para que a gente possa ir lá e fazer.
Folha - Como é o Projeto Dança de Quinta?
Flávia - É um teatro de arena, que acontece toda quinta, às 20h, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura. Na minha concepção, o projeto tem um caráter de Jam. (O termo é emprestado do jazz norte-americano, significa Jazz After Midninght, onde os artistas se encontravam para produzir através de improvisos). Não se sabe o que vai acontecer, mas sabe-se que alguma coisa vai acontecer. Vamos lá, vamos nos encontrar para provocar tudo isso, para provocar. Vamos dançar, porque dançar é uma delícia. É importante deixar claro que o Danças de Quinta é aberto para todas as pessoas, as pessoas podem se inscrever ou não, podem ser profissionais ou não, ter grupo ou não. O importante é encontrar o seu lugar no movimento.
Folha - Como surgiram as artes plásticas na sua vida?
Flávia – Eu tive alguns grandes incentivadores. Um deles foi o professor de Artes, Edson Panis. Eu queria ser ele, pelo seu conhecimento nessa área. Ele foi um fator decisivo em relação às artes plásticas. O professor Geraldo (Almeida) também foi determinante na questão da música e na poesia. O professor Newton Moura Müzel também me incentivou e o jornalista Riko Leite também me ajudou muito.
Folha - Hoje, como é o seu dia-a-dia?
Flávia - Acordo com o sol, às seis horas da manhã. Tomo café com o Pedro, leio, acompanho os desenhos que o Pedro faz. Às 7h ele vai para a Emei (Escola Municipal de Educação Infantil) e eu vou para o trabalho. Durmo súper cedo.
Folha - Você é mãe. Como conciliar essa sua efervescência cultural com a maternidade?
Flávia – Eu trago o Pedro comigo. Acho que, no mínimo, ele vai ser um belo apreciador das artes. Em São Paulo, assistíamos a várias apresentações culturais. Aqui em Itapeva ele também me acompanha. Acho importante que ele  adquira essa noção de sustentabilidade, educação ambiental, consciência ecológica. Acho que hoje a família possui uma nova construção, onde nem sempre há as figuras do pai e da mãe, mas os valores e os estímulos à generosidade, à compaixão devem permanecer.
Folha - Com relação ao desenvolvimento cultural, como você imagina Itapeva quando seu filho estiver com a sua idade?
Flávia - Acho que tem que melhorar muito. Hoje tenho agido mais pela Educação, pela coletividade. Estou trabalhando pela transformação de toda a comunidade e acredito que as coisas vão melhorar.
Folha - O seu corpo, mesmo depois dos 30, permanece enxuto. Você tem algum cuidado especial com a alimentação e exercícios?
Flávia - Eu como muito bem, e como de tudo, inclusive gorduras. Mas sempre de forma consciente. Desde os 20 anos fiz uma reeducação alimentar, então me cuido, faço caminhadas, tenho as minhas aulas, mas sem neuras. Se você está conectado com o corpo e a mente, já é.

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